domingo, 1 de maio de 2011

AULA 7

AULA 7
          O texto abaixo é de Luís Fernando Veríssimo, importante escritor brasileiro contemporâneo nascido em Porto Alegre. Veríssimo é conhecido por seus contos e crônicas. O texto abaixo foi publicado no livro Banquete com os deuses: cinema, literatura e outras artes.
            Antes de ler o texto:
            - De que você tem medo?
            - O que você faz quando está exposto àquilo do qual você tem medo?
            - Você sabe o que é uma fobia?

            Vamos ler o texto?

FOBIAS

Não sei como se chamaria o medo de não ter o que ler. Existem as conhecidas claustrofobia (medo de lugares fechados), agorafobia (medo de espaços abertos), acrofobia (medo de altura) e as menos conhecidas ailurofobia (medo de gatos), iatrofobia (medo de médicos) e até a treiskaidekafobia (medo do número 13), mas o pânico de estar, por exemplo, num quarto de hotel, com insônia, sem nada para ler não sei que nome tem. É uma das minhas neuroses. O vício que lhe dá origem é a gutembergomania, uma dependência patológica na palavra impressa. Na falta dela, qualquer palavra serve. Já saí de cama de hotel no meio da noite e entrei no banheiro para ver se as torneiras tinham “Frio” e “Quente” escritos por extenso, para saciar minha sede de letras. Já ajeitei o travesseiro, ajustei a luz e abri uma lista telefônica, tentando me convencer que, pelo menos no número de personagens, seria um razoável substituto para um romance russo. Já revirei cobertores e lençóis, à procura de uma etiqueta, qualquer coisa.
Alguns hotéis brasileiros imitam os americanos e deixam uma Bíblia no quarto, e ela tem sido a minha salvação, embora não no modo pretendido. Nada como um best-seller numa hora dessas. A Bíblia tem tudo para acompanhar uma insônia: enredo fantástico, grandes personagens, romance, sexo em todas as suas formas, ação, paixão, violência, – e uma mensagem positiva. Recomendo “Gênesis” pelo ímpeto narrativo, “O cântico dos cânticos” pela poesia e “Isaías” e “João” pela força dramática, mesmo que seja difícil dormir depois do Apocalipse.
Mas e quando não tem nem a Bíblia? Uma vez liguei para a telefonista de madrugada e pedi uma Amiga.
– Desculpe, cavalheiro, mas o hotel não fornece companhia feminina...
– Você não entendeu! Eu quero uma revista Amiga, Capricho, Vida Rotariana, qualquer coisa.
– Infelizmente, não tenho nenhuma revista.
– Não é possível! O que você faz durante a noite?
– Tricô.
Uma esperança!
– Com manual?
– Não.
Danação.
– Você não tem nada para ler? Na bolsa, sei lá.
– Bem... Tem uma carta da mamãe.
– Manda!
Nota: Caso deseje saber mais sobre Luís Fernando Veríssimo, sua vida e obra, clique aqui e visite o site Releituras.
            Agora, responda às seguintes questões sobre o texto:
1.     O autor do texto tem medo de quê?
2.     Dê dois exemplos de atitudes tomadas por ele para satisfazer seu desejo de ler?
3.     Por que a Bíblia tem sido “a salvação, embora não no modo pretendido”?
4.     Observe as palavras abaixo e seus respectivos significados:
claustrofobia – medo de lugares fechados;
agorafobia – medo de espaços abertos;
acrofobia – medo de altura;
ailurofobia – medo de gatos;
iatrofobia – medo de médicos;
treiskaidekafobia – medo do número 13.
           
a)     Que outras fobias você conhece?
b)     Que partícula das palavras acima corresponde a “medo”?
5.     Em “gutembergomania”, a partícula mania significa “obsessão ou dependência de algo”. Descubra o que significa as palavras abaixo:
a)     claustromania =
b)     acromania =
c)     ailuromania =

AULA 6

            Em nossa última aula vimos como as palavras viajam no tempo e são constantemente ressignificadas (ganham novos sentidos). Agora, daremos nomes a estas unidades de sentido que formam as palavras e descobriremos suas origens, bem como as funções que desempenham de acordo com a posição delas.

ESTRUTURA DAS PALAVRAS

Observação: A presente exposição consta no livro Gramática: teoria e exercícios, de Paschoalin & Spadoto, da Editora FTD, pp. 147 - 148.

A palavra é formada por partes menores, chamadas elementos mórficos (mórfico: morfo --> forma).
            Exemplos:
infeliz - in + feliz
chaleira - cha + l + eira
falávamos – fal + á + va + mos

Radical

            É o elemento que contém o significado básico da palavra; a ele são acrescidos os outros elementos:


Radical
gat
+
o
=
gato
gat
+
a
=
gata
gat
+
inho
=
gatinho
gat
+
inha
=
gatinha
gat
+
ão
=
gatão

            No caso acima, nosso radical é gat-, uma vez que contém o significado básico da palavra.
Afixo
            É o elemento que se junta ao radical para a formação de novas palavras. Pode ser, portanto:
·       prefixo: elemento colocado antes do radical.
in + feliz = infeliz
·       sufixo: elemento colocado depois do radical.
feliz + mente = felizmente
            Os prefixos, sufixos e radicais costumam vir de outras línguas que influenciaram a formação da língua portuguesa, especialmente do latim e do grego.
Observação: paralelamente à unidade de estrutura e formação das palavras, também veremos como surge a língua portuguesa.
            Clicando nos links abaixo, você poderá ver as tabelas com prefixos, sufixos e radicais de origem grega e latina que compõem maior parte das palavras em português.
·       Sufixos.

quinta-feira, 14 de abril de 2011

Extraclasse 2

Produção de Texto

Nós temos uma visão clara desta hora.
Sabemos que é de tumulto e de incerteza.
E de confusão de valores.
E de vitória do arrivismo.
E de graves ameaças para o homem.
 
Mas sabemos, também, que não é esta a primeira
hora de agonia e inquietude que a humanidade vive.

Introito, Tasso da Silveira

          O poema acima pertence a Tasso da Silveira, poeta modernista brasileiro de cunho espiritualista. Apesar de ser um dos grandes poetas brasileiros do século XX, seu nome tem circulado recentemente na imprensa devido ao que ocorreu no Rio de Janeiro no dia 7 de abril de 2011.
          Tal tragédia abalou os brasileiros uma vez que ninguém esperava que algo deste tipo ocorresse no Brasil, o que nos levou a refletir sobre as causas e consequências do atentado no Realengo.
           Com o intuito de refletir sobre o ocorrido, escreva um texto analisando o que aconteceu e procurando as possíveis causas que levaram a esta tragédia, bem como atitudes que podemos tomar para evitar que isso ocorra novamente.
           Como se trata de nossa primeira redação de cunho dissertativo, siga as orientações que daremos abaixo.
           Escrever é um exercício de reflexão. Então a primeira coisa a se fazer é informar-se sobre o tema da nossa redaçãoLeia notícias de revistas e jornais que fizeram a cobertura da tragédia ou procure informações em sites de notícias - digite em um site de buscas (Google, Yahoo...) palavras como "realengo", "tasso da silveira", "tragédia no Rio de Janeiro";

          De posse das informações, precisamos pensar sobre o que lemos procurando encontrar os porquês de tal tragédia ter ocorrido. Lembre-se de que nada na vida é simples; para que um fato como este ocorresse, vários fatores concorreram, colaboraram para isso: veja o que foi dito por especialistas, tais como psicólogos, professores... Aprofunde-se em problemas como bullying, cultura da violência, falta de acompanhamento psicológico nas escolas, facilidade no acesso às armas.
          Não basta apontar problemas, é necessário pensar em soluções. Tendo em vista, as causas que levaram à tragédia, pense em ações que poderiam evitar que isso ocorra novamente.

          Tendo refletido sobre o assunto, agora é a hora de escrever. Planeje o seu texto pensando em um começo, um meio e um fim para ele:
  •  para o começo, procure fazer um breve resumo do que aconteceu no Rio de Janeiro, pois devemos começar um texto sempre partilhando com algo que nós e o nosso leitor sabemos, a isso chamamos conhecimento partilhado;
  • para o meio, tente estabelecer ligações entre o que aconteceu e por que aconteceu; investigue as causas, enumere-as;
  • para o fim, busque formas de se evitar que um atentado como este ocorra novamente.
          A presente produção é a primeira de cunho dissertativo que fazemos. Como toda primeira vez, encontraremos muitas dificuldades. Mas não se preocupe, trata-se de um exercício de escrita. Em sala ainda trabalharemos técnicas de redação dissertativa e faremos outras redações do mesmo tipo.

domingo, 3 de abril de 2011

AULA 5

        Para começarmos a conversar sobre o tema das nossas próximas aulas, Estrutura e Formação das Palavras, começaremos por ler um texto do poeta mato-grossense Manoel de Barros.

ESCOVA
          Eu tinha vontade de fazer como os dois homens que vi sentados na terra escovando osso. No começo achei que aqueles homens não batiam bem. Porque ficavam sentados na terra o dia inteiro escovando osso. Depois aprendi que aqueles homens eram arqueólogos. E que eles faziam o serviço de escovar o osso por amor. E que eles queriam encontrar nos ossos vestígios de antigas civilizações que estariam enterrados por séculos naquele chão. Logo pensei de escovar palavras. Porque eu havia lido em algum lugar que as palavras eram conchas de clamores antigos. Eu queria ir atrás dos clamores antigos que estariam guardados dentro das palavras. Eu já sabia também que as palavras possuem no corpo muitas oralidades remontadas e muitas significâncias remontadas. Eu queria então escovar as palavras para escutar o primeiro esgar de cada uma. Para escutar os primeiros sons, mesmo que ainda bígrafos. Comecei a fazer isso sentado em minha escrivaninha. Passava horas inteiras, dias inteiros fechados no quarto, trancado, a escovar palavras. Logo a turma perguntou: o que eu fazia o dia inteiro trancado naquele quarto? Eu respondi a eles, meio entressonhado, que eu estava escovando palavras. Eles acharam que eu não batia bem. Então eu joguei a escova fora."


NOTA: caso tenha interesse em conhecer mais sobre a vida e obra do poeta Manoel de Barros, clique aqui.
          Para compreendermos o texto que acabamos de ler, vamos pensar nas questões abaixo:
·        O que o poeta tinha vontade de fazer?
·        O que fazem os arqueólogos?
·        Como poderíamos escovar palavras?
·        O que ocorre quando escutamos conchas?
·        Por que as palavras são conchas de clamores antigos?
          Tendo pensado nas questões acima, uma das possíveis reflexões que o texto nos permite fazer é a de que as palavras não surgem junto com a gente. Não somos os primeiros a pronunciá-las nem as inventamos. Antes de nascermos elas já existiam e já eram usadas por outras pessoas. Nós as aprendemos ouvindo de outras pessoas ou as lendo em algum lugar. Mas se elas existem antes de nós e, muitas vezes, antes de nossos pais e avós, então de onde elas vêm?
         O poeta nos diz que as palavras possuem muitas oralidades remontadas e muitas significâncias remontadas. O que ele quer dizer com isso?
          Para entendermos melhor, vamos pensar na palavra gárgula. Você já viu uma gárgula? Veja a imagem abaixo:
           Podemos chamar gárgulas a essas esculturas de seres imaginários que aparecem geralmente em prédios e templos antigos. Segundo o Houaiss, gárgula é:
“desaguadouro, parte saliente das calhas de telhados que se destina a escoar águas pluviais a certa distância da parede e que, especialmente na Idade Média, era ornada com figuras monstruosas, humanas ou animalescas”.
          Sendo assim, notamos que, em princípio, gárgula dá nome a uma espécie de calha, à qual os medievais, com um intuito artístico, acrescentaram uma estrutura esculpida, como a que vemos acima, ocorrendo que, ao escoar a água da chuva, ela sai pela boca da criatura fazendo um som parecido com o de gargarejo. Ora, muitas vezes, para representar o barulho da água escoando ou sendo bebida por alguém usamos o som da letra g (por exemplo, glub; glog...). Dessa forma, o pedaço garg na palavra gárgula refere-se a gargarejar e nos recorda o barulho produzido pela água. É nesse sentido que o poeta nos diz que as palavras possuem no corpo (as letras que as formam) muitas oralidades (sons) remontadas.
          Somente uma curiosidade: pode ser que você questione por que as igrejas têm imagens de monstros esculpidas em seus topos em vez de se esculpir anjos? Dê uma olhada neste detalhe da Catedral da Sé:
          A resposta é de que, especialmente na Idade Média, acreditava-se que o Paraíso ficava sobre uma grande montanha que se localizava em alguma parte da Terra, desconhecida dos homens. A fim de que estes não subissem sem o devido consentimento ao Paraíso, imaginava-se que Deus mantinha criaturas maravilhosas que impediam a aproximação de intrusos. É com o objetivo de se referir a esses monstros que as igrejas possuem tais esculturas no alto dos templos.
         Saciada a curiosidade, vejamos outro exemplo, agora referente às significâncias remontadas de nos fala o poeta. Para tanto, analisemos a palavra útero.
         Segundo Houaiss, útero é o órgão muscular oco do aparelho feminino que acolhe o ovo fecundado durante seu desenvolvimento e o expulsa, finda a gestação.
         A grosso modo, podemos dizer que o útero é um recipiente, pois recebe algo em si. Contudo, este algo que ele recebe é um ser vivo e, socialmente, a notícia de uma gravidez costuma ser uma alegria para os pais e aqueles que são ligados aos pais. Ora, segundo um estudo etimológico (ciência que estuda a origem das palavras), a palavra útero vem de outra palavra latina, uter, que era usada remotamente para designar o odre, recipiente em que se guarda líquidos, dentre eles o vinho. Esta última bebida é tida pela tradição como símbolo da alegria e da vida. Dessa forma, podemos perceber que a palavra para designar o órgão que gera a vida vem de outra palavra que se refere a um recipiente cujo líquido guardado em si é motivo de alegria para os homens. Assim, os significados de útero e odre estão ligados por uma relação de sentido.
          É por isso que o poeta diz que as palavras são conchas de clamores antigos, porque as ouvindo atentamente, investigando suas origens, podemos descobrir de onde elas vêm, mesmo que estas significâncias e oralidades estejam longe de nós, no tempo e no espaço.
          Agora, resta-nos pensar: será que é possível escovar as palavras?
          Vejamos. Apliquemos a nossa “escova” à palavra infelizmente.
           Se escovarmos o final dessa palavra, retirando todas as letras dela até chegarmos à outra palavra, teremos infeliz. Se decidirmos escovar o começo dela, então teremos uma nova palavra: feliz.
         Poderíamos também viajar no tempo para procurar suas antigas oralidades e significâncias, mas creio que já está provado que é possível escovar palavras.
          É exatamente isso que aprenderemos a fazer em nossas próximas aulas. Não somente a escovar palavras, mas também a utilizar outros instrumentos que nos ajudarão a descobrir os significados das mesmas. Por exemplo, podemos também dividir palavras em pedaços menores que contêm sentido em si.
          Dê uma olhada no exemplo abaixo:
          Podemos dividir a palavra arqueologia em arqueo (=arcaico, antigo) e logia (estudo), sendo arqueologia uma ciência que estuda antiguidades. Podemos também pegar o termo logia e juntar a outros pedaços de palavras, tais como socio, psico, geo. No último caso, formamos a palavra geologia que significa estudo (=logia) da terra (=geo). Se juntarmos geo com grafia, teremos geografia, que é a ciência que descreve a terra por meio de mapas e outros instrumentos. Grafia significa escrita. Podemos juntá-la a orto e teremos ortografia, que é a escrita (=grafia) correta (=orto) das palavras, ou a cali e teremos caligrafia, que é a bela (=Cali) escrita (=grafia) das palavras. E assim por diante.

quinta-feira, 24 de março de 2011

Sete lições sobre o texto

          Em nossas aulas, desde o início do ano letivo até o presente momento, tivemos a chance de analisar algumas características do texto. Resumirei brevemente aqui os tópicos mais importantes que vimos:
1. A característica mais importante de um texto é sua unidade de sentido. A mera junção de palavras ou frases não pode ser chamada de texto. Para que um conjunto de palavras ou frases receba este nome elas precisam estar relacionadas umas com as outras formando um todo.
2. Quando pensamos em texto, costumamos imaginar somente palavras reunidas como que em um bloco. Contudo, um texto pode ser construído a partir de uma linguagem verbal, composta somente de palavras faladas ou escritas (um conto) ou uma linguagem não-verbal (uma fotografia, um quadro), ou ainda uma linguagem verbal e não-verbal (um filme, uma reportagem, uma novela).
3. Todo texto é produzido por um sujeito que viveu num determinado lugar e num determinado tempo. Sendo assim, devemos sempre considerar o tempo e o lugar onde um sujeito escreveu o texto, pois esses elementos podem nos dar pistas importantes para melhor compreendermos o texto.
4. Os textos podem ter características em comum quanto à finalidade, à estrutura e à linguagem empregadas. Sendo assim, eles podem ser classificados segundo gêneros textuais. Por exemplo: receita, conto, letra de música, poema, fábula, crônica...
5. Se compararmos dois textos, podemos encontrar semelhanças e diferenças quanto ao tema (o que o texto diz) e quanto à forma (como ele diz).
6. Muitas vezes encontramos textos que citam, direta ou indiretamente, outros textos, anteriores a eles. Então ocorre como que um “diálogo” entre textos. A isso chamamos intertextualidade.
7. Em certos momentos, o sujeito que produz um texto pode estar impedido de dizer o que deseja ou pode simplesmente não querer dizê-lo tão claramente. Nesses casos, ele pode utilizar imagens que, de forma figurativa,  expressem aquilo que ele realmente deseja dizer. Por exemplo, na fábula dO lobo e o cordeiro, La Fontaine conta a história da relação entre os dois animais com o objetivo de mostrar ao leitor que, numa terra sem lei, vale a lei do mais forte. Assim, o lobo e o cordeiro são imagens que ilustram para nós as relações injustas que podem existir quando os homens não são regidos por leis ou não as respeitam.
Referências bibliográficas:
FIORIN, José Luiz; SAVIOLI, Fracisco Savioli. Lições de texto: leitura e redação. 4ª ed. São Paulo: Editora Ática, 2002.
SAYEG-SIQUEIRA, João Hilton. O texto. 7ª ed. São Paulo: Selinunte Editora, 1990.

Leitura de Imagem: O último adeus, de Alfredo Oliani

          Em nossas aulas vimos que o texto não é construído somente com linguagem verbal (palavras), mas também pode ser contruído a partir de uma linguagem não-verbal (imagens). Dessa forma, considerando que os textos podem usar as linguagens mais diversas, é possível se fazer a leitura de um quadro ou escultura, por exemplo. A fim de nos exercitarmos na leitura de imagens, apreciaremos abaixo alguns fotos do conjunto escultórico O último adeus, de Alfredo Oliani. Em seguida, sugiro que procuremos refletir sobre as questões abaixo da imagem. Para realizarmos melhor este exercício, não deixe de registrar suas respostas no caderno.



Em relação às imagens acima:
  1. Em que lugar a escultura está localizada?
  2. Por que a escultura parece deslocada ou inadequada em relação ao lugar no qual ela se encontra?
  3. Podemos notar oposições (contrários) na escultura? (Para tanto observe quais são as figuras que compõem a obra, quais são suas atitudes...)
  4. Junto à estátua, estão as seguintes palavras: "Ó Nino, meu esposo, meu guia e motivo eterno de minha saudade e de meu pranto. Tributo de Maria". Se compararmos essas palavras à escultura, que incoerência encontramos?
          Para melhor compreendermos este conjunto escultórico, vamos ler o artigo O 'Último Adeus', de Alfredo Oliani, que saiu no caderno Metrópole dO Estado de São Paulo em 28 de outubro de 2006. Seu autor é o professor e escritor José de Souza Martins.


          Aquele Beijo já deu o que falar. O conjunto escultórico Último Adeus, de Alfredo Oliani, no Cemitério São Paulo, é a mais comentada obra de arte cemiterial da cidade de São Paulo. Muitos a consideram uma proclamação de erotismo estético, até mesmo uma ousadia profunda a indevida na arte funerária paulistana. Enganam-se. Está localizada logo à direita de quem entra pelo portão principal do Cemitério, na Rua Cardeal Arcoverde. É inevitável que o visitante logo a veja, seja pelo volume seja pelo tema. Um portão lateral menor dá quase na frente da bela obra. Ali é o túmulo de Antônio Cantarella, falecido nas antevésperas do Natal de 1942, com 65 anos de idade, e de sua esposa, Maria Cantarella, dez anos mais moça.
          Ela faleceria muitos anos depois do marido, em 1982. Os dizeres inscritos na pedra do túmulo, quando seu falecimento, informaram que “aqui repousa Maria Cantarella ao lado de seu inseparável e amado esposo...”. Quando da morte do marido, mandara ela própria esculpir na pedra fria estas palavras calorosas e apaixonadas: “Ó Nino, meu esposo, meu guia e motivo eterno de minha saudade e de meu pranto. Tributo de Maria”. É como se ela fizesse questão de apresentar aos passantes anônimos o homem de sua vida, apresentado-se a si mesma assim tão exposta na imortalidade de seu amor.
          Os dois escritores vão muito além da maioria dos textos em memória dos mortos de nossos cemitérios. Especialmente o da própria Maria, uma intensa e direta palavra de amor, uma recusa em reconhecer o tenebroso abismo da morte. Tanto a palavra de Maria quanto a própria obra de arte enchem de luz aquele recanto do cemitério. A escultura de Oliani é sem duvida uma das nossas mais finas e mais belas representações da dor da separação, porque a nega na intensidade carnal do encontro entre um homem e uma mulher.
          O motivo principal do conjunto escultórico de Oliani é uma comovente expressão do sentido do amor na vida dos dois. Um homem atlético, nu, reclina-se apaixonadamente sobre o corpo de uma mulher jovem e bela para beijá-la. Ela está morta. A esposa, sobrevivente do casal, pede ao artista uma escultura que celebre abertamente o sentimento profundo de sua união com o marido, reconhecendo-o ainda vivo em sua vida, depois dele morto, e ela própria morta sem a companhia dele. Não reluta na confissão de sua paixão. De fato, há um expressivo componente erótico nesse monumento funerário. Muito mais expressivo, porém, porque está contido numa relação invertida: a viúva declara-se morta e declara o marido de seu imaginário conjugal ainda vivo e no seu pleno vigor de homem. A extraordinária beleza do túmulo do casal Cantarella está na eloquente recusa da anulação do corpo e da sexualidade pela morte, na eloquente declaração de amor sem disfarce, de Maria por Antônio, o Antonino, o Nino.
          Alfredo Oliani, filho de italianos, nascido em São Paulo, em 1906, e aqui falecido em 1988, tinha como características de suas obras, várias das quais localizadas ali no Cemitério São Paulo, a sensualidade e a beleza femininas e o nu, como neste conjunto do sepulcro dos Cantarella. Estudara aqui mesmo, na Academia de Belas-Artes de São Paulo, com Nicola Rollo, que também deixou nos cemitérios paulistanos obras emblemáticas, como Orfeu e Eurídice, no Cemitério da Consolação, a celebração da imortalidade do amor do casal mítico.
          Foi aluno, ainda, de Amadeu Zani, autor do Monumento á Fundação de São Paulo, no Pátio do Colégio, e do conjunto escultórico em memória de Giuseppe Verdi, no Vale do Anhangabaú. Na Itália, na Academia de Belas-Artes de Florença, estudou com Giuseppe Grazziosi, fotógrafo, pintor e escultor, que recebera influências de Rodin.
          Antônio Cantarella veio da Itália já casado com Maria. O amor dos dois é lendário na família. Antônio imigrou rico e se estabeleceu em São Paulo como comerciante e proprietário. Se deixou bens, não sei. Ele e Maria deixaram mais que isso, a lenda de sua paixão sobrepondo-se à própria morte.

domingo, 20 de março de 2011

Extraclasse 1

HIERARQUIA

Millôr Fernandes

Diz que um leão enorme ia andando chateado, não muito rei dos animais, porque tinha acabado de brigar com a mulher e esta lhe dissera poucas e boas.
Eis que, subitamente, o leão defronta com um pequeno rato, o menor que ele já tinha visto. Pisou-lhe a cauda e, enquanto o rato forçava inutilmente pra escapar, o leão gritava: "Miserável, criatura, estúpida, ínfima, vil, torpe: não conheço na criação nada mais insignificante e nojento. Vou te deixar com vida apenas para que você possa sofrer toda a humilhação do que lhe disse, você, desgraçado, inferior, mesquinho rato!" E soltou-o .
O rato correu o mais que pode, mas, quando já estava a salvo, gritou pro leão: "Será que Vossa Excelência poderia escrever isso pra mim? Vou me encontrar com uma lesma que eu conheço e quero repetir isso pra ela com as mesmas palavras!"

Moral: Ninguém é tão sempre inferior.
Submoral: Nem tão nunca superior, por falar nisso.

1. Quais os principais personagens do texto?
2. Por que o Leão estava chateado?
3. Em quem ele (o Leão) resolveu descontar a sua fúria e por que resolveu poupar-lhe a vida?
4. Por que o animal ofendido queria que o Leão escrevesse as ofensas que fez a ele?
5. Pesquise no dicionário a palavra HIERARQUIA e copie seu significado.
6. Dê um exemplo de hierarquia que você vivencia ou conhece em nossa sociedade.
7. Por que o texto se chama HIERARQUIA?
8. Em sua opinião, o Leão agiu com justiça? Por quê?
9. Pesquise o que é uma FÁBULA.
10. Podemos classificar este texto como uma fábula? Por quê?
11. Compare o texto que lemos agora com a fábula “O Lobo e o Cordeiro”, de La Fontaine, que lemos em sala. Quais são as semelhanças e diferenças entre os dois textos quanto ao tema e à estrutura?

Observação: o presente extraclasse foi sugerido pela professora Nilde, de Linguagens e Códigos do Módulo IV - Noturno.